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Consumo sustentável


   Data de validação legal: 15/03/2011

Alimentação e sustentabilidade

Texto de reflexão de Mário Beja Santos

A alimentação não é a mesma coisa para um consumidor, um agricultor, um grossista ou um investigador. Tratando-se de uma das mais vastas problemáticas onde cabem o material e o imaginário, a agricultura, a segurança, a saúde pública, mas também a psicologia, a antropologia e o próprio ambiente, é compreensível que cada uma destas dimensões, ao serem destacadas, obscureçam as outras.

Os consumidores, por exemplo, aparecem diretamente interessados, no abastecimento alimentar, em que a profusão seja diversidade, qualidade e preço razoável, como igualmente estão interessados no controlo e vigilância, na adoção de normas de agricultura prudente e pretendem, a todo o instante, uma informação objetiva e segura. Por outras palavras, pretendem que haja uma prevenção de toxinfeções e outros riscos alimentares, uma dissuasão de pavores e pânicos como sejam as vacas loucas ou a gripe aviária, gostam de produtos tradicionais que lhes evocam o étnico, gostam de produtos globais que satisfazem a curiosidade do exótico e que sejam preferencialmente de baixo custo. E, mais recentemente, associam a alimentação à prevenção de doenças e têm curiosidade em saber o que há de verdadeiro nas alegações de saúde. Tudo isso é muito importante, mas é uma dimensão da sustentabilidade.

Uma equipa multidisciplinar lançou-se, entre Outubro de 2001 e Abril de 2005, num projeto centrado no Concelho de Alcácer do Sal, agrupando e reagrupando os seus saberes desde a flora, passando pela conservação dos alimentos, a pesquisa do que ali há de mais poderoso quanto a recursos alimentares e identidades territoriais, procurando estabelecer o arco entre as tradições alimentares, o ambiente e o património. Nasceu assim “Tradição e inovação alimentar, Dos recursos silvestres aos itinerários turísticos”, organizado por Maria Manuel Valagão, Edições Colibri, 2006.

Trata-se de um projeto integrado sobre as interdependências entre as tradições alimentares, a conservação da natureza e o desenvolvimento local. Associou recursos silvestres (ervas aromáticas condimentares), tomate seco, cogumelos e produtos como os pinhões, investigou o saber fazer culinária local, ponderou os temperos e avançou para as necessidades sociais dos consumidores, propondo soluções de facilidade para o seu quotidiano alimentar. Por último, esta braçada de tradições alimentares locais, vista à luz da inovação, foi explorada à luz de um turismo ambiental que possa estar atento à descoberta gastronómicas. Assim, o leitor tem à sua mercê o conhecimento de plantas da flora local, aprende a conhecer cogumelos silvestres e a saber que se podem valorizar e conservar alimentos mediante a secagem; depois são inventariadas tradições alimentares que utilizem as ervas aromáticas condimentares, as plantas silvestres alimentares, os cogumelos silvestres e o tomate. Os investigadores oferecem por último a apresentação de itinerários turísticos estruturados de modo a conhecer por dentro a Companhia Agrícola da Barrosinha e o Concelho de Alcácer do Sal numa perspetiva do turismo sustentável, combinando lazer e saber, respeito pela natureza e apreço pelas tradições alimentares e gastronómicas locais.

O livro podia ser maçudo, excedendo-se na erudição; pelo contrário aproxima e simplifica, dando prazer entrar numa empresa agrícola, conhecer-lhe as potencialidades e percorrer um Concelho para explorar diferentes belezas. É essa a singularidade da obra: empolga ficar a conhecer uma determinada botânica e depois saber que há plantas que organizam paladares; descobrir que existem cogumelos e que eles afinal estão à nossa volta; aprender o processo de laboração da secagem do tomate; envolver-se nas tradições alimentares locais e perceber que aquelas ervas são dos recursos mais valiosos ao serviço do património gastronómico; saber escutar a força da gastronomia local, abrir-se à doçaria local à base de pinhão, perceber que é um desafio económico de grande valor encontrar respostas inovadoras para as tradições alimentares; e descobrir o turismo local ambiental, fazendo cruzar a comida com o património natural e reconstruído, a paisagem e a flora.

A equipa multidisciplinar está de parabéns, produziu um interessantíssimo manual prático, em que as práticas alimentares se revelam como uma cultura que abre as portas ao desenvolvimento local e regional. Livro que não deve ficar nas Universidades nem nas Autarquias, pois é um estímulo empresarial e um hino às ciências sociais e humanas.

 
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